sexta-feira, 19 de agosto de 2016

OS VENTOS

Lembro-me dos ventos
nos agostos
da minha infância.

Na inexatidão
dos sonhos de criança,
involuntária,
a esperança
era uma marcha de fé.

Os cheiros, as manhãs,
os orvalhos
eram as partes de um eterno
presente futuro
como se o tempo não tivesse muro
e a vida caminhasse de marcha a ré.

O infinito não passava
da primeira esquina,
o universo estava na ponta da linha
em desenhos leves
nas rabiolas das pipas
que se mesclavam ao balé das aves de rapina.

A galinha no quintal
era como um deus ciscando o mundo
à caça de felicidades
sob um sol não refletido
já que a lamparina era a luz possível
a amenizar a escuridão.

A bola, o estilingue, a mãe,
a bica de águas cristalinas,
alimentavam o poeta de calças curtas
que ainda não sabia
a razão de quase nada
mas que se assustava com as crenças sobre o fim do mundo.

Lembro-me dos ventos dos agostos
porque os sentia com mais contundência.


 Lembro-me da fome
e de quem, como em santa ceia
sem multiplicação de pães,
repartia-nos o pouco que havia
como a manter-se pela Providência
de um amor imensurável.

O tempo era o passageiro instante
a trepidar nos galhos das árvores
que derramavam folhas amarelas
sobre as trilhas das arapucas mal armadas
meio a araçás em um quintal desconhecido de grande,
mas aquecido por brincadeiras de roda.

Mas o tempo nos ventos
esvaiu-se. Assim como os agostos e as décadas.
Na lembrança
a criança guardada em algum ponto
do cinquentenário passando.

Criança e homem que brincam
em tempos distintos
no mesmo corpo
que por instinto
vê no vento um horizonte
de intentos e pipas que tremulam.

Frágeis linhas
de um belo a bailar no olhar
na arte de sentir
o que o tempo como vento
na lembrança nos permite eternizar.           Paulo Franco 


1º LUGAR NO 7º PRÊMIO LITERÁRIO "ACRÌSIO DE CAMARGO"
PREFEITURA E SECRETARIA DE CULTURA DE INDAIATUBA
PRÊMIO: R$ 2.000,00 E PUBLICAÇÃO NO JORNAL DE INDAIÁ - 2011

POEMA FINALISTA NO 
IV FESTIVAL ABERTO DE POESIA FALADA DE SÃO FIDÉLIS
SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA - 2012

2º LUGAR NO IX PRÊMIO BARUERI DE LITERATURA
SECRETARIA DE CULTURA E TURISMO - 2012


1ª MENÇÃO HONROSA NO
CONCURSO LITERÁRIO FELIPPE D'OLIVEIRA - EDIÇÃO 2014
SECRETARIA DE MUNICÍPIO DA CULTURA
PREFEITURA DE SANTA MARIA

sexta-feira, 24 de junho de 2016

A TERRA DAS CRIANÇAS PRETAS


E os soldados brancos
sentinelam as crianças pretas.
E as crianças pretas
já não brincam de marchar
e observam os desfiles
dos soldados brancos.


E os soldados brancos
nunca brincam
vigiando
esta terra de crianças pretas.


E as crianças pretas
se acostumam a jamais serem soldados
e só brincam de crianças pretas
dominadas por soldados brancos.


...Pois que ser soldado
deve ser só para crianças brancas
que já nascem dominando
até os sonhos das crianças pretas.


Paulo Franco

domingo, 13 de março de 2016

segunda-feira, 9 de março de 2015

A PUTA

Um dia te deram um nome provisório
o qual permutaram pelo de esposa.
Chamaram-te menina, menina moça
e de menina em menina, mulher.
Deram-te lições de corte,
costuraram a tua boca,
maquiaram-te em moldura
de barroco efeito
e te fizeram dar a vida
para proteger o fruto virginal perfeito.
E com as regras de ternura
tornaram-te a imprestável candura
reprodutora do ócio mortal do lar.
Mas tudo bem,
no fim, te prometeram um bem.
Ensinaram-te a ser doce para o amargo do par,
amar cedendo sempre a tua parte,
amar com arte coibindo a tua libido,
gemendo a dor do cotidiano
para amenizar o teu engano
e satisfazer teu marido.
E como já de berço
rezaram-te todos os terços
com as regras de etiqueta,
menstruação e boa conduta,
caso percas o recato
arrancarão teu retrato
pra te tomarem o nome
e te chamarem de puta.
PAULO FRANCO
I CONCURSO DE POESIAS SOBRE A MULHER
COLÉGIO BRASILEIRO DE POETAS
1º LUGAR – CATEGORIA POESIA
OBRA: A PUTA

domingo, 17 de agosto de 2014


SONETO DO AMOR IMPERFEITO

Não quero mais buscar o amor perfeito
pra camuflar o sentimento em chama
e amortecer o que me dói no peito,
a mesma dor de todo ser que ama.

Que amar assim, eu sei, não é direito,
pois todo peito preso nesta trama
adoecido faz do olhar um leito
pra adormecer a fonte deste drama.

Vou procurar amar só o instante
um amor maior, porém um passageiro
tão transeunte quanto o amante

que tenha amores pelo mundo inteiro
e ao invés da dor o peito sempre cante
o imperfeito amor que é o verdadeiro.

Paulo Franco

1º LUGAR - Concurso Diário do Litoral
1º LUGAR - PRÊMIO LICINHO CAMPOS DE POESIAS DE AMOR
GRUPO DE POETAS LIVRES - REVISTA VENTOS DO SUL

terça-feira, 19 de novembro de 2013

NECROSE


Ainda vivo
(e) morro
por sua 
ausência
(presente em mim).

Paulo Franco

( 3º LUGAR NO 5º CONCURSO DE POESIA MINIMALISTA "POETIZAR O MUNDO" )

domingo, 24 de março de 2013


PERALTA, O PATO DO GALINHEIRO



          Peralta, o único pato da casa, morava no galinheiro e achava que o mundo era assim mesmo. Foi trazido para lá ainda no ovo que foi aquecido pela galinha Choca. Quando escapou das casquinhas, à sua volta, só viu pintos, muitos pintos piando. Quando tentou piar saiu um som esquisito que parou o galinheiro. Todos riram bastante e o patinho silenciou por muito tempo.
          Não demorou muito para a mamãe Choca levar seus pintos para o terreiro. Ela ciscava na frente e todos ciscavam atrás, enquanto pegavam bichinhos e pedrinhas para o papo. Peralta tentava, mas não conseguia. Era muito desajeitado. Logo percebeu que os seus pezinhos eram bem diferentes. Ele ainda não sabia o que era um pé de pato. Os pintinhos também não, mas o achavam um pateta e riam demais.
          O tempo foi passando e Peralta foi ficando cada vez mais peralta. Entrava na água, pulava na lama, se sujava, caia, levantava, fuçava os cantos do galinheiro com seu bico diferente. Deu muito trabalho para a Choca até que cresceu e todos se acostumaram com as suas travessuras.
          Porém, Galeão, o galo do terreiro, não ia com a cara do Peralta e o perseguia muito. Dizia que ele tinha bico de pato, contava anedotas sobre um tal patinho feio e ainda proibia que as galinhas se aproximassem dele. Não se sabia exatamente a razão, mas todos no galinheiro percebiam que o galo se sentia ameaçado, possivelmente porque todos adoravam as peraltices do pato.
          E o Peralta nem ligava. Até obedecia algumas ordens do  Galeão. Menos quando o galo o mandava voar para fora do galinheiro.  Primeiro, que o pato não sabia voar tão alto e depois, é claro, ele tinha medo do lado de fora. Peralta não sabia o que era o mundo além do galinheiro.
          Certo dia, o pato petiscava distraidamente na beira do laguinho, quando de repente percebeu que havia uma raposa no galinheiro. Era co-co-ri-có para todo lado. O galo Galeão, para tentar botar ordem no terreiro, lascava esporadas na fuça da raposa, que muito ágil, já havia ferido um frango e assustado todos os pintinhos que piavam escondidinhos sob as asas das mães.
          Peralta, com todo o seu desajeito, correu o máximo que pode para ajudar o Galeão, mas escorregou e caiu com a cara no balde de ração que saiu rolando e bateu em uma escada que despencou na cara da raposa e ainda de quebra soltou a tramela do portão. 
          A raposa, meio atordoada, fugiu desesperada, para alívio, é claro, do galo que queria continuar cantando de galo. Porém, o Peralta, apesar do escorregão, que ninguém viu, ficou com fama de valentão e foi ovacionado pelas galinhas e pintinhos.
          O Galeão, para manter a pose, mandou o pato espiar lá fora do galinheiro para ver se a raposa já tinha ido mesmo embora, já que o portão estava aberto. Peralta, ainda meio bobo pelo tombo, deu um passinho à frente e se viu do lado de fora. O galo, muito astuto, bateu forte as suas asas coloridas na direção do portão que se fechou novamente, enquanto que com uma bicada colocou de volta a tramela, alegando que era para a segurança dos pintinhos e das galinhas.
          Do lado de fora, Peralta era o desespero em pessoa, quer dizer, em pato. Mas não teve muito tempo para tentar retornar porque ouviu o latido do cão da casa. Então correu, correu muito sem olhar para trás e para a sua sorte chegou rapidamente em um grande lago, bem diferente do laguinho do galinheiro.  Pulou dentro d’água e nadou, nadou, nadou até cansar.
          Aí, então, aconteceu o inesperado: Peralta olhou de lado e viu uma grande quantidade de patos. Pato pequeno, pato grande, pato preto, pato branco, pato colorido e patas, muitas patas lindinhas.
          Peralta até ficou feliz por ter ficado para o lado de fora do galinheiro. Percebeu que o que parecia ruim acabou sendo bom. Entendeu que o mundo era bem melhor do que quando ele ainda achava que a vida só fazia sentido preso.
           Adorou saber que ele era um pato no meio de galinhas, mas não um pato em um mundo de galinhas.
          Sentindo-se bem em casa, aproximou-se dos outros patos que o receberam com naturalidade. Ali ninguém se sentia desajeitado porque todos eram desajeitados. Muito provavelmente, se o Galeão ali estivesse, jamais cantaria de galo porque ele seria o desajeitado. Peralta percebeu que já não estava se sentindo um pateta.
          Não demorou muito tempo para que uma bela patinha fizesse um quá quá para o Peralta. Logo Peralta era papai de patinhos e passeava no lago com a pata Tatá.
          Um belo dia, já na segunda ninhada da Tatá, para a surpresa da pataria, nasceu um pinto. Ninguém sabia o que era aquele bicho estranho no ninho. Virou um reboliço. Quá quá quá para todo lado.
          Alguns patos mais nervosos queriam sumir com o pinto. Onde já se viu? Nascer um pato que não é pato?
          - Que bicho feio! – falou o pato colorido.
          - Mas você nem é pato, seu marreco! – Interviu  o Peralta que se sentiu ofendido por ver o seu pintinho ser chamado de feio.   E também porque o pato conhecia o que era um pinto.
          A pata Tatá adorou a ideia de ser mãe de um patinho diferente. O resto da ninhada demorou um pouco mais para nascer, mas a Tatá esperou pacientemente. Os demais patinhos nasceram patinhos.   Logo estavam todos prontos para o primeiro passeio no lago.
          Peralta não disse um quá, mas acompanhou a sua pata amada com a ninhada até o lago. Ele queria ver de perto aquela pataquada.
         Não demorou nada e os patinhos pularam na água, enquanto o pintinho ficou fazendo piu do lado de fora. Os patinhos quiseram fazer quá quá quá porque o pinto era muito desajeitado, mas o Peralta não deixou. Chamou a Tatá, reuniu patinhos e patões e explicou para todos o que realmente era um pinto.
          Todos ficaram emocionados com a história do Peralta no tempo em que ele era o pato do galinheiro e passaram a aceitar o pinto com o devido respeito que ele merecia.
          O Peralta, às vezes, sentia falta das galinhas. Do Galeão não. Em especial, sentia falta da Choca, a sua mãe de criação. Porém, não lhe passava pela cabeça de pato que tinha, voltar a viver no antigo galinheiro.
          O seu filho pinto já estava quase virando um franguinho, quando em uma bela manhã encostou por aquelas bandas um enorme caminhão. A maioria dos patos sabia o que era um caminhão porque tinham sido trazidos para lá em um deles. Correram para ver de perto, pois logo imaginaram que estaria chegando uma outra remessa de patos. Contudo, para a surpresa de todos, principalmente dos gansos, eram vários engradados de galinhas, muitas galinhas, vários frangos e um enorme galo que lembrava o Galeão da história do Peralta.
          Ficaram todos muito preocupados, mas, pelo menos, eles já sabiam um pouco da natureza das galinhas... e dos galos.
          Peralta, que neste momento estava ocupado tomando conta do pinto enquanto a Tatá passeava no lago com os patinhos, assim que percebeu o movimento, rapidamente também correu, é claro que todo desengonçado, para ver de perto o que estava acontecendo. E o pinto, que já era um frango, correu atrás do pai pato e ainda chegou na frente.
          Quando o Peralta chegou o pinto estava de bico aberto, tamanha era a surpresa por ver tantos semelhantes. Era pinto de todo tipo. Pinto pequeno, pinto grande, pinto preto, pinto branco, pinto carijó e muitos pintos rajadinhos. É lógico, além de muitas galinhas e o galo com cara de chefe de terreiro.
          Para o espanto do Peralta, uma galinha correu na sua direção e tascou-lhe um abraço de asas. Era a Choca, sua mãe de ninho e coração. A felicidade foi muito grande. Peralta chorou de emoção e não eram lágrimas de crocodilo. Eram lágrimas de um pato feliz. A galinha Choca, ainda emocionada, olhou para o pinto do pato e logo se ofereceu para ajudar a acabar de criá-lo, principalmente porque ela tinha uma ninhada de pintos bem parecidos com ele. Inclusive eram todos da mesma cor. O Peralta e a Tatá adoraram porque assim os dois poderiam cuidar melhor dos patinhos no lago.
          Enquanto conversavam, o galo Galeão veio botar banca para cima do Peralta. Os outros patos, os marrecos e os gansos ficaram espiando aquela galinhagem do galo e não gostaram nada, nada. O ganso mais velho deu uma tremenda bicada na crista do galo que ficou meio atordoado.
          Foi então que um frango, que já era quase galo, botou o Galeão para correr. As galinhas ficaram com as penas arrepiadas por ele ter defendido o Peralta.
          E daí para frente todos passaram a viver em harmonia. Os patos continuaram patos e as galinhas, galinhas.   Peralta agora era mais feliz porque ele não era o pato do galinheiro, mas um dos muitos patos vivendo entre tantas galinhas. O pinto também não era mais um estranho. Tinham aprendido, que de certa forma, todos eram iguais, mas cada um respeitando a diferença do outro, o espaço do outro, a vida do outro.

PAULO FRANCO
TEXTO PUBLICADO NA COLETÂNEA "PRÊMIO SESC DE CONTOS INFANTIS MONTEIRO LOBATO”   -   BRASÍLIA – DF - 2011